O doloroso caminho da fibromialgia

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Sem causa ou exame específico, a fibromialgia ainda é uma doença desconhecida, de difícil diagnóstico e subtratada. Cerca de 2,5% da população brasileira sofre com a síndrome

Uma dor lancinante que se espalha por todo o corpo e que vem acompanhada de sensações desconfortáveis e desagradáveis. Com sintomas assim, não é à toa que Frida Kahlo (1907-1954), famosa pintora mexicana que sofreu de fibromialgia durante toda a vida adulta até sua morte, é autora da frase: “Eu sou a desintegração”.

Essa descrição negativa dos efeitos da fibromialgia faz parte de todo um contexto de desconhecimento e demora do diagnóstico (e, consequentemente, do tratamento adequado) que cerca a doença. Fato que acontecia no passado e pode existir até os dias de hoje.

“Diagnosticar a fibromialgia pode ser difícil, devido à ausência de características clínicas e laboratoriais que sejam específicas desta condição e pela possibilidade de ser confundida com várias doenças”, explica Milton Helfenstein Jr, reumatologista e assistente doutor da disciplina de reumatologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

De acordo com a pesquisa “Fibromialgia: além da dor”1, conduzida pelo Instituto Harris Interactive a pedido da Pfizer, até o momento do diagnóstico a fibromialgia é uma condição desconhecida para 70% dos pacientes brasileiros. O levantamento também destaca que, no Brasil, 98% dos pacientes concordam que a fibromialgia é uma doença que não se conhece bem, enquanto que 77% dos clínicos gerais e 84% dos especialistas acreditam que a enfermidade não é muito conhecida, inclusive, entre os próprios médicos.

A identificação dos sintomas da fibromialgia é o primeiro passo para um diagnóstico mais ágil. Trata-se de uma síndrome clínica que se manifesta por dor difusa em todo o corpo. Além da dor, outras queixas envolvem cansaço, sono não reparador (diversos distúrbios do sono que fazem o paciente sair da cama cansado) e distúrbios de concentração e memória. “Os indivíduos também podem sofrer de outros sintomas, como cefaleia, tontura, sensação de inchaço, palpitação, dormências nos membros e transtornos do humor. Esses fatores precisam ser bem investigados pelo médico antes do diagnóstico definitivo”, orienta Helfenstein Jr. Por causa dessas características, 68% dos especialistas e 66% dos clínicos gerais brasileiros revelam que há dificuldade de distinguir esses sintomas dos de outras doenças1, como artrite reumatoide, hipotireoidismo, lúpus e síndrome de Sjögren.

Apesar de existirem estudos indicando que mulheres que possuem um familiar com fibromialgia podem ser mais propensas a tê-la também, ainda não é possível afirmar que a fibromialgia tenha uma causa hereditária. “Existem casos de filhos de mulheres fibromiálgicas apresentarem os sintomas da doença antes mesmo dos 18 anos”, relata. “O que se sabe é que a doença é oito vezes mais frequente em mulheres do que em homens e, em número de pessoas atingidas, a prevalência chega até 10% em alguns países e 2,5% da população brasileira”, diz o reumatologista.

São vários os fatores que podem contribuir para o quadro da fibromialgia: clima úmido, tensão, sedentarismo, postura incorreta, além de fatores intrínsecos, como depressão, ansiedade e problemas emocionais.

Não há radiografia, ressonância ou exame de sangue que diagnostique a doença, o que torna fundamental a interação entre médico e paciente. Tanto especialistas quanto clínicos gerais precisam estar munidos das informações sobre os sintomas e entender o perfil do paciente fibromiálgico. Muitos pacientes estão sentindo dor há muito tempo e, por conta do desconforto, possuem muitas queixas e costumam amplificar os sintomas. “Para evitar o desgaste da procura por médicos de diferentes especialidades, é importante a disseminação do conhecimento dos sinais da fibromialgia, tanto entre profissionais de saúde quanto a população em geral”, ressalta Helfenstein Jr.

Para lidar com uma doença que possui sintomas tão diversificados, o tratamento precisa ser acompanhado pelo médico e, geralmente, ser multidisciplinar. Entre as opções de terapias farmacológicas, alguns medicamentos ajudam no controle dos sintomas, como analgésicos e relaxantes musculares. Utilizam-se ainda antidepressivos e neuromoduladores – nesta classe, existe Lyrica (pregabalina), que atua diminuindo o excesso de mensagens de dor transmitidas dos nervos para o cérebro e, além de amenizar a dor, melhora a qualidade do sono do paciente e reduz a ansiedade. Vale ressaltar que o paciente deve sempre consultar um médico para fazer o diagnóstico correto e indicar o tratamento mais adequado para cada caso.

O reumatologista reforça ainda a necessidade da prática de atividades físicas, tanto para manter o corpo em movimento quanto para perder ou manter o peso. Muitos pacientes acreditam que o exercício pode agravar o quadro de dor. Entretanto, a realização de atividades aeróbicas como caminhada, hidroginástica, natação e alongamentos costumam trazer grandes benefícios para quem tem a síndrome. “A fibromialgia não é incapacitante. Tudo é uma questão de mudança de estilo de vida, acompanhamento médico e aderência ao tratamento recomendado”, conclui.

Hábitos de vida saudáveis facilitam o cotidiano
de pessoas com fibromialgia

Ainda que generalizada, a dor e outros sintomas da fibromialgia podem não ser incapacitantes. O tratamento também depende do paciente

A fibromialgia impacta significativamente em diversos aspectos da rotina dos pacientes. Segundo a pesquisa “Fibromialgia: além da dor”, 91% dos pacientes1 reclamam que a doença afeta a qualidade geral de vida, sendo que 79% apontaram dificuldades na mobilidade física e 67% destacaram que o ânimo é prejudicado por causa dos sintomas. No âmbito profissional, tanto clínicos gerais (75%) quanto especialistas (70%) concordam que a enfermidade prejudica a capacidade de trabalhar dos pacientes:

· 73% dos pacientes apontam deterioração na qualidade do trabalho
· 59% dos pacientes sentem-se limitados na carreira
· 50% dos pacientes só se acham capazes de trabalhar às vezes, sem ganhar tanto quanto antes do diagnóstico
· 37% dos pacientes não se sentem capazes de trabalhar e receber um salário
· 35% dos pacientes dizem ter perdido o trabalho devido à fibromialgia

A abstinência de trabalho também é um problema decorrente da doença. Aproximadamente 84% dos pacientes relataram ter faltado pelo menos um dia ao trabalho durante o ano. Outros 51% já chegaram a perder mais de 40 dias trabalhados por causa da fibromialgia.

Mas engana-se quem pensa que deixar de trabalhar colabora com o controle dos sintomas da doença. Segundo o reumatologista Milton Helfenstein Jr2, estudos mostram que as pessoas que se afastam por longos períodos do trabalho não são beneficiadas. “A fibromialgia não é incapacitante. O paciente pode até se ausentar por um curto período, mas é importante evitar esse tipo de comportamento”, alerta. “O ideal é que o empregador compreenda a situação e busque tarefas alternativas para esse trabalhador, pois o ócio e a inatividade podem agravar o quadro”.

De acordo com Helfenstein Jr, a partir do momento em que a pessoa é diagnosticada com a síndrome, o primeiro passo é a mudança de hábitos de vida. “A responsabilidade pelo controle dos sintomas precisa ser compartilhada com o paciente. A fibromialgia não é como uma pneumonia, que basta tomar medicamento para ficar curado. O indivíduo precisa adotar um novo estilo de vida e aderir aos tratamentos recomendados pelo médico”, orienta.

O médico ressalta a importância da indicação de uma abordagem terapêutica multidisciplinar, que pode requerer a participação de um psiquiatra ou psicólogo. “O tratamento da doença vai além do uso de medicamentos para combater a dor, a fadiga ou o humor. Tudo o que pode influenciar a capacidade funcional e impactar nas atividades diárias do paciente precisa ser ajustado em prol da atenuação e controle dos sintomas”, alerta.

Fatores comportamentais como sedentarismo, tabagismo, etilismo e obesidade colaboram para o agravamento da fibromialgia. Com relação ao cigarro, um estudo3 com 233 pacientes fibromiálgicos, sendo 51 fumantes, constatou que os tabagistas apresentavam maior severidade da doença avaliada pelo próprio paciente, maior incapacidade funcional e parestesias (sensações de dormência e/ou formigamento).

Também é necessário desmistificar a questão de que o paciente com fibromialgia não pode fazer exercícios. “Atividades físicas são altamente recomendadas para que o paciente fique com o peso ideal e, inclusive, para a produção de endorfina”. A endorfina é uma substância produzida pelo corpo que relaxa e dá prazer, despertando uma sensação de euforia e bem-estar, muito importante para a manutenção do otimismo.

Referências:

  •     Pesquisa “Fibromialgia: Além da Dor”, encomendada em 2011 pela Pfizer e realizada pelo Instituto Harris Interactive no Brasil, México e Venezuela, com 904 participantes: 604 clínicos gerais e especialistas (reumatologistas, neurologistas, psiquiatras, especialistas em dor) e 300 pacientes.
  •     Milton Helfenstein Jr é reumatologista e assistente doutor da disciplina de reumatologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
  •     Estudo realizado por Yunus e colaboradores (Scand J Rheumatol 31(5): 301-305, 2002).

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