O conceito de fragilidade na terceira idade

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Diante da inusitada renúncia do Papa Emérito Bento XVI, muitas reflexões sobre a saúde na terceira idade podem ser feitas…

De cabelos brancos, 85 anos, o Papa Emérito Bento XVI parece um pouco curvado nas últimas fotos em que aparece. O Vaticano confirmou recentemente, pela primeira vez, o fato de que ele teve um marcapasso implantado há alguns anos, um indicador de problemas do coração. Seu irmão mais velho, em meio à turbulência da renúncia, chegou a dizer que “a idade estava cobrando seu preço”.

Observadores e vaticanistas notaram há algum tempo uma redução na energia vital do Papa Emérito. No último Natal, ele foi transportado para o altar de São Pedro, para a missa da meia-noite, em uma “plataforma de rodas”, em seguida, pareceu cochilar durante a missa.

Em sua última visita ao México, no ano passado, ele acordou durante a noite e não conseguiu localizar o interruptor de luz no seu quarto, em consequência, caiu – cenário familiar para cuidadores de pessoas idosas – e sua cabeça chegou a sangrar quando ele a bateu na pia do banheiro.

Além destes poucos fatos expostos na imprensa, sabemos muito pouco sobre os problemas de saúde que levaram Bento a anunciar sua aposentadoria antecipadamente. Nós nem sequer realmente sabemos se a sua declaração – “a certeza de que meus pontos fortes, devido à idade avançada, não são mais adequados para um exercício adequado do papado” é a verdadeira razão por trás de sua resignação.

Mas todas as pessoas que o rodeavam foram descrevendo-o como cansado e cada vez mais frágil. “Em geriatria, ‘fragilidade’ tem um significado específico: é uma síndrome, um conjunto de sintomas fisiológicos que drena a reserva de energia das pessoas, deixando-as menos capazes de resistir a estressores, como uma longa caminhada através da Basílica de São Pedro ou em torno de um país estrangeiro”, explica a geriatra Renata Diniz (CRM-SP 132.280).

Segundo a médica, os critérios mais amplamente utilizados para o diagnóstico de fragilidade foram publicados por Fried e seus colaboradores em 2001. Segundo o autor, para que o idoso seja classificado como “frágil”, é preciso que ele apresente três dos cinco critérios listados a seguir:
• Perda de peso não intencional de mais de 4,5 quilos ou 5% do peso corporal no último ano;

• Perda de força muscular, medida por um teste de força de preensão manual;

• Auto relato de exaustão; necessidade de esforço para fazer atividades habituais ou não conseguir fazê-las, famosa “fadiga”;

• Redução da velocidade de marcha, em teste de caminhada de 4,6m, caracterizada por um caminhar lento, de passos curtos;

• Baixa atividade física, observada após questionário respondido que quantifica as atividades físicas habituais.
“Para fechar o diagnóstico, o geriatra leva em conta as declarações do próprio idoso, que, muitas vezes, relata uma sensação de vulnerabilidade muito grande, com falta de energia para realizar as tarefas diárias ou uma fadiga que não passa. A prevalência da fragilidade aumenta com a idade. Há uma pequena proporção de pessoas em seus 60 anos (cerca de 3%), mas este índice vai aumentando até atingir cerca de um quarto ou um terço das pessoas 85 anos ou mais,” diz a especialista.

“Aprendemos a prestar atenção nesta condição médica devido às suas consequências infelizes. A fragilidade está fortemente associada com maior mortalidade, aumento da dependência física, quedas e internações hospitalares. Bento é frágil? Minha impressão clinica é que sim. Ele está relatando que está esgotado, está visivelmente mais magro que no início de seu papado, necessitou da ajuda de um carro para caminhar dentro da igreja, o que demonstra perda de força e lentidão… Mas é claro que para o diagnóstico definitivo seria necessário uma avaliação clínica”, considera Renata Diniz.

Apresentando fragilidade ou não, certamente, as chances que o Papa Emérito tenha outros problemas de saúde são grandes, mesmo que estas condições não sejam reconhecidas pelos porta-vozes do Vaticano. Nos Estados Unidos, por exemplo, pelo menos, quase metade das pessoas acima de 65 anos tem duas ou mais doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e enfisema.

O que a fragilidade representa
A fragilidade é uma das condições que indicam que nem tudo está bem com o idoso. Muitas vezes, eles mesmos reconhecem esta condição, mesmo sem dados sobre a velocidade de caminhada.

“Esta discussão a respeito da saúde do Papa Emérito não é uma tentativa de diagnosticar Bento XVI remotamente. Esta é uma boa oportunidade de discutir com a sociedade o que a fragilidade representa para os idosos, visto que esta é uma condição que traz consequencias devastadoras na vida do idoso e sobre a qual podemos fazer algo a respeito”, informa a geriatra Vanessa Morais (CRM-SP 132.283).

Segundo a especialista, nos estágios iniciais de fragilidade, há possibilidade de revertê-la ou retardá-la. “A chave é identificar esta situação e principalmente buscar a causa que está levando aquele idoso a uma condição de fragilidade, que na maior parte das vezes é multifatorial e necessita de atuação multiprofissional. Muitas vezes é necessário formar um time de profissionais: nutricionista, fisioterapeuta, educador físico e geriatra para que a intervenção tenha bons resultados”, destaca Vanessa.

Para vencer a fragilidade, é essencial investir na prática de exercícios físicos. O idoso tem de andar e movimentar-se para manter a força e a massa muscular. Não há uma droga que possa ser prescrita para isto, por isto, o exercício físico com treinos de força, flexibilidade, equilíbrio e aeróbicos são os pilares do tratamento nestes casos. “As pessoas com fragilidade podem levar uma vida normal e muito boa, se estiverem cercadas de cuidados médicos apropriados e apoio social, principalmente familiar”, defende a geriatra.

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